quarta-feira, 1 de novembro de 2017


Contavam as sereias que na tempestade dos seus olhos
os barcos adormeciam tontos, cansados das marés;
que os seus beijos sabiam a mar e que na sua pele crestada
pelo sol havia a cintilância das ondas ao meio-dia;
que os seus ombros lembravam promontórios e que neles
as mulheres deixavam naufragar as mãos e os lábios;
que uma noite tocara a lua com os seus dedos-mastros
e ouvira uma voz dentro de si, vinda de muito longe;
que era hábil com as redes, como com as palavras.



Alguém veio pedir-lhe que abandonasse os peixes
pelos homens. Em troca, receberia
um templo eterno, uma chave, o privilégio de decidir
todos os lugares da chuva, um nome novo
para poder negar o que vira antes.

Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 16 de agosto de 2017


Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você

Tom Jobim



Como não podemos mudar a realidade, deixe-nos mudar os olhos com os quais vemos.

 Nikos Kazantzakis






Dancemos de mil maneiras,
E digam que a nossa arte... é livre,
E gaia... a nossa ciência!

Nietzsche

O que mais me comove , em música, são essas notas soltas – pobres notas únicas – que do teclado arranca o afinador de pianos.

Mário Quintana


segunda-feira, 31 de julho de 2017


"Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo..."
Pablo Neruda, Poema Mi alma

Podia ser ela mesma, quando estava só. E era isto que precisava fazer com frequência: pensar. Bem, nem mesmo pensar. Ficar em silêncio; ficar sozinha. E toda a existência, toda a atividade, com tudo que possuem de expansivo, brilhante, vibrante, vocal, se evaporavam. Então podia, com uma certa solenidade, retrair-se em si mesma, no âmago pontiagudo da escuridão, algo invisível para os outros.

Virginia Woolf. Ao Farol; tradução de Luiza Lobo. Ediouro, pág. 67.



Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa o ar
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da criação!
Mas, então, 
Que urde eternamente a trama e tão velhos sonhos?
quem faz  - em mim – esta interrogação?

Mário Quintana



E foi naquela idade…
  A poesia chegou em busca de mim.
Não sei, não sei de onde veio,
Do Inverno ou de um rio.
Não sei como ou quando,
Não, não eram vozes,
Não eram palavras, nem silêncio,
Mas chamaram-me de uma rua,
Dos ramos da noite abruptamente,
Por entre fogos violentos
Ou regressando só,
Ali estava eu sem rosto

E ela tocou-me.

 Pablo Neruda



afogar-se
às vezes é morrer
em líquidas palavras
que nunca dizemos.

Silvia Chueire



domingo, 30 de julho de 2017


"Chegam aromas de amanhã em mim."

Manoel de Barros 



O poema
Essa estranha máscara
Mais verdadeira do que a própria face...

Mário Quintana



Mentira?

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.

Mário Quintana



Chamais vós alma ao que tão frouxamente
vibra em vós? O que, como o soar dos cascavéis loucos,
pede aplauso e corteja dignidades
e finalmente, pobre, morre uma morte pobre
na tarde incensada de capelas góticas, -
chamais a isso alma?

Quando olho a noite azul, pelo Maio nevada,
em que os mundos giram longas vias,
então me parece que trago em mim um pedaço
de eternidade no peito. Agita-se, e grita,
e quer subir e quer girar com eles...
E isso é que é a alma.

Rainer Maria Rilke