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sábado, 5 de setembro de 2015

Vaga melancolia


Gostaria de escrever um poema e não sei de quê.
Há em mim uma inquietação como se para nascer
um grande gesto, uma ideia, o visível do que se não vê.
Mas não nasce, não se vê, nasce apenas o prazer
desta vaga melancolia que em si mesma consiste
e tem o gosto de ser triste
sem o ser.

Vergílio Ferreira


domingo, 6 de abril de 2014


"Que última palavra me deste? Palavra de amor, de ira, de ordem seca em estalo. Palavra para lembrar. Pela vida inteira, a tua última palavra. A que selasse por uma vez a linguagem do sangue, de um destino comum. Não a recordo. Vejo antes a tua face retraçada de cólera. E os olhos baixos, diretos ao chão. Cólera contra ti, contra a vida, contra mim. Forma de talvez me amares na tua dedicação animal."

Vergílio Ferreira, em "Para Sempre"

sábado, 8 de março de 2014


Fica-te assim, oh, não te mexas. Tenho tanto que dar uma volta à vida toda. Não te movas. Sob a eternidade do sol e da neve. Uma malícia súbita no teu riso, no teu olhar. Um clarão à volta de deslumbramento. Irradiante fixo. Não te tires daí. Instantâneo na minha desolação. Tenho mais que fazer agora. Não saias daí. A boca enorme de riso, os olhos oblíquos de um pecado futuro. Fica-te aí assim, talvez te procure ainda, talvez te escreva uma carta de amor. Daqui donde estou, está uma tarde quente. De amor.



Vergílio Ferreira, em "Para Sempre"

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013



Vou deitar-te na eternidade, que é esse o teu lugar, é esse, é esse. E agora só tenho que te amar tudo de ti, não deixar nada de fora. Porque, sabê-lo-ás? Nunca ninguém amou completamente, houve sempre uma forma de amar fragmentária, parcial. Amou-se sempre em função de uma fração do amor como se usou um vestuário segundo a moda, desde o calção ou o penante de plumas. Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz. Vou-te amar como um homem desde que os há, desde o tempo das cavernas até hoje e com um pequeno suplemento que é só meu.

Vergílio Ferreira

quarta-feira, 30 de outubro de 2013


Invento a realidade nas palavras que a inventam - se eu soubesse a palavra dessa realidade. Uma palavra de beleza, de paz, de harmonia. De exaltação esperança evidência. Não a sei. De conforto e altura, de alegria. De loucura mesmo que fosse, qualquer coisa assim, qualquer merda assim, oh, qualquer coisa. Não a ouço, nada a sabe. Vou inventá-la rapidamente antes de alguém ma negar- meu amor. Estou bem necessitado de ti, tanto. Um entendimento à minha volta, e o teu olhar calado, cheio de compreensão caritativa. Criar à minha volta a harmonia que não há não houve, e o torpor do meu sono, e a justificabilidade de tudo na vida, de eu estar aqui, de haver morte no mundo.

Vergílio Ferreira

domingo, 27 de outubro de 2013



"Vida finda. Mas não perguntes. Sonhos, lutas, e a obsessão do enigma - não perguntes. E do que o ordenasse ao universo - não penses. A palavra ainda, se ao menos. A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última, a primeira."

Vergílio Ferreira

quarta-feira, 28 de agosto de 2013



“Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encontrado.”


Vergílio Ferreira, “Para Sempre”

sábado, 13 de julho de 2013



"A saudade não está na distância das coisas, mas numa súbita fratura de nós, num quebrar de alma em que todas as coisas se afundam."

Vergílio Ferreira

sábado, 9 de março de 2013




"Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento «real», a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas «comovente»... Dói-me o que sofri e «recordo», não o que sofri e «evoco».

Vergílio Ferreira

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013



"Tenho tanto que dar uma volta à vida toda. Não te movas. Sob a eternidade do sol e da neve. Uma malícia súbita no teu riso, no teu olhar. Um clarão à volta de deslumbramento. Irradiante fixo. Não te tires daí. Instantâneo da minha desolação. Tenho mais que fazer agora. Não saias daí. A boca enorme de riso, os olhos oblíquos de um pecado futor. Fica-te aí assim, talvez te procure ainda, talvez te escreva uma carta de amor. Daqui donde estou, está uma tarde quente. De amor."


Vergílio Ferreira, in "Para Sempre"

sábado, 16 de fevereiro de 2013



O vocabulário do amor é restrito e repetitivo,
porque a sua melhor expressão é o silêncio.
Mas é deste silêncio que nasce toda o vocabulário do mundo.

Vergílio Ferreira