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sábado, 28 de maio de 2016


Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores.

Alberto Caeiro


domingo, 10 de janeiro de 2016


Ah! querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol, 
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver.
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.


E como a alma é aquilo que não aparece,
A alma mais perfeita é aquela que não aparece nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das cousas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros,
A coincidência exata e inteira de uma cousa consigo mesma.


Alberto Caeiro [Heterônimo de Fernando Pessoa], In Poemas Inconjuntos 

domingo, 28 de dezembro de 2014




Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo

Alberto Caeiro

quinta-feira, 14 de agosto de 2014



Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.
  
Alberto Caeiro


Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu

Alberto Caeiro

segunda-feira, 2 de junho de 2014

 

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

Alberto Caeiro

quarta-feira, 23 de abril de 2014




Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente onde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E somos vadios do nosso corpo.

Alberto Caeiro [Heterônimo de Fernando Pessoa]

quarta-feira, 19 de março de 2014



O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender...

Alberto Caeiro

quinta-feira, 3 de outubro de 2013



O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Alberto Caeiro
(heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013



Todas as teorias, todos os poemas 
Duram mais que esta flor. 
Mas isso é como o nevoeiro, que é desagradável e úmido, 
E maior que esta flor... 
O tamanho, a duração não têm importância nenhuma... 
São apenas tamanho e duração... 
O que importa é a flor a durar e ter tamanho... 
(Se verdadeira dimensão é a realidade) 
Ser real é a única coisa verdadeira do mundo. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013


Todas as teorias, todos os poemas 
Duram mais que esta flor. 
Mas isso é como o nevoeiro, que é desagradável e úmido, 
E maior que esta flor... 
O tamanho, a duração não têm importância nenhuma... 
São apenas tamanho e duração... 
O que importa é a flor a durar e ter tamanho... 
(Se verdadeira dimensão é a realidade) 
Ser real é a única coisa verdadeira do mundo. 


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Pensar em Deus...



Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

Alberto Caeiro

sexta-feira, 21 de junho de 2013



Alberto Caeiro

terça-feira, 11 de junho de 2013



Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 18 de abril de 2013




Estas verdades não são perfeitas porque são ditas.
E antes de ditas pensadas.
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias.
Na negação oposta de afirmarem qualquer cousa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim.


Alberto Caeiro

segunda-feira, 8 de abril de 2013




Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

Alberto Caeiro



É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

Alberto Caeiro

domingo, 31 de março de 2013




O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Alberto Caeiro, O Guardador de rebanhos

quinta-feira, 14 de março de 2013



Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.


Alberto Caeiro

quarta-feira, 13 de março de 2013



“Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.”

Alberto Caeiro