quarta-feira, 23 de abril de 2014
Olhos azuis, cabelos pretos
A cólera se foi. As mãos se erguem para o rosto e o acariciam. Ela cobriu novamente o rosto com a seda preta da paz. Diz: — Se você não tivesse voltado, eu teria ido outra vez com as pessoas dos rochedos, à noite, para estar com elas, ir sem saber, voltar da mesma maneira.
Olhá-las enfiarem o membro nas mãos da menina e chorar com os olhos fechados.
Ela diz: — Nada que venha de fora de mim ou de você pode nos ensinar.
— Nenhum conhecimento, nenhuma ignorância?
— Nada. Existem pessoas assim, fechadas, que não podem aprender de ninguém. Nós, por exemplo, não podemos aprender o que quer que seja, nem eu de você nem você de mim, nem de ninguém, nem de nada, nem dos acontecimentos. Burros. Qualquer que seja o número de séculos que venha recobrir o
esquecimento de suas existências, essa ignorância terá existido como agora, neste exato momento, nesta data, nesta luz fria. Eles o descobrem, ficam encantados.
E também porque daqui a mil anos serão mil anos que este dia terá existido, dia a dia. Que a ignorância do mundo inteiro pelo que disseram hoje estará datada. Sem palavras, sem tinta para escrevê-la, sem livro onde ser lida, datada.
Ainda assim continuam encantados.
Ela diz: Desse modo, tudo o que existe está aqui, no quarto. Com a mão espalmada mostra o chão de lajes, os lençóis, a luz, os corpos.
Ela dorme um sono de juventude, teimoso e imperativo. Transformou-se naquela que não sabe que o barco passou. Ele pensa: Como meu filho.
As vezes ele ergue a seda preta do rosto. O corpo mal se move, sabendo que ele o faz, mas incapaz de espantar o sono.
No rosto, o salpicar quase desvanecido das sardas do verão. Ele olha. Olha bem, como a cada noite. Às vezes fecha os olhos para distanciar a imagem, imobilizá-la na fotografia de férias com outros que não ele. Mas sem dúvida já é tarde demais para isolá-la da vida ao lado dele.
Só no quarto, o despojamento dócil e longo dos lençóis brancos. Separada deles, a forma da desconhecida sentada no chão, a cabeça pousada nos braços dobrados. Braços escondendo os olhos. Perto dela, a forma dele, deitada, longe dos lençóis, longe dela. Ficam assim até o nascer do dia, entre os prantos, o sono, os risos e novamente os prantos, a vida, a morte.
Ela diz: Essa sua dificuldade sempre esteve presente em minha vida, inscrita no mais profundo do meu gozo com os outros homens.
Ele pergunta de que ela está falando. Ela fala da impossibilidade, do asco que lhe inspira. Diz que esse asco
por si mesma, ela compartilha com ele. E depois que não, não é o asco. Não, o asco é inventado.
Ela, ela acha que é a coisa que aconteceu neste quarto como teria acontecido em outro lugar, esse acontecimento universal que não podem conhecer, que jamais conhecerão, que estará oculta por suas semelhanças com outras coisas, mas tão proximamente que ninguém, com toda a certeza, teria sido capaz de isolar sua existência enquanto dado geral do homem.
Todos os homens? Ele pergunta.
Todos. Ela acrescenta: Você tem razão.
Ele deitou na poça dos lençóis brancos no meio do quarto.
Ela o olha. Chama-o. Choram. A calma volta ao mar, ao quarto. Ela diz que o ama para além dele mesmo, que não deve ter medo.
Marguerite Duras, Olhos azuis cabelos pretos
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