domingo, 1 de dezembro de 2013

Tu não cabes num poema


amiga,
tu não cabes num poema.
esse dou a quem manda meu orgulho.
ali os versos são medidos, são de propósito,
mas tu me dás o verso inesperado.
assim me apraz,
assim eu gosto.
me conversas, te converso,
dizes coisas tuas e me levas coisas minhas,
assim, sem que um peça, sem que o outro se obrigue.

se a esse porto nos foi fácil a atracação,
dizer que não é escusado,
porque sabes que não.
muitas vagas e tormentas,
vírgulas e reticências,
pontos de interrogação
—areia, pedra e cimento—,
fizeram esse, teu e meu, nosso momento,
onde um —capricho do acaso, sabe do outro.

se nesse porto faz-se aconchegante o cais,
dizer que sim é redundante,
porque sabes que sim.
risos recortando papos sérios,
e aquela saudade de ouvir
quando há pouco já ouvidos mutuamente
—areia, pedra e cimento—,
fazem esse, teu e meu, nosso momento,
onde um —não por acaso, cuida do outro.

mas dizia que não cabes num poema.
não porque os faço com compasso,
tiro o prumo, ponho esquadro e tudo mais.
não.

porque és sublime.

e porque és sublime,
dou-te as mãos que escrevem os poemas.
os olhos que os lêem.
os ouvidos que ouvem os poemas ainda no devir.
dou-te o cheiro dos poemas.
e os lábios que os dizem.


Antoniel Campos