terça-feira, 27 de agosto de 2013
Ele lembra que três dias atrás ela chegara atrasada. Pergunta se foi por causa do homem. Ela procura se lembrar. Não, não fora ele. No dia de que ele está falando, ele a abordara na praia. Fora hoje que haviam ido pela primeira vez ao quarto do hotel.
A partir desta noite ela chegará mais tarde do que deveria. Não diz por si mesma o motivo do atraso. Ele precisa perguntar, então ela diz. E por causa do homem, ela o vê durante a tarde, ficam juntos até a hora do contrato, aquela em que ela vem para o quarto passar a noite. Esse homem conhece sua existência, ela lhe falou sobre ele. Ele também goza violentamente do desejo que ela sente por outro homem.
Quando ela fala do homem seus olhos não o deixam. Freqüentemente fala no limiar do sono. Quando adormece, ele o sabe pela boca que se entreabre, pelos olhos que param de tremer sob as pálpebras e que, de repente, submergem no avesso do rosto. Então ele a vira vagarosamente para o chão, para o campo de seu olhar. Ela dorme. Ele olha. Faz com que a seda preta escorregue, olha o rosto. O rosto, sempre.
Esta noite, a maquiagem dos olhos foi devorada pelos beijos do outro homem. Os cílios estão nus, têm a cor da palha fulva. Há leves contusões nos seios. As mãos estão abertas, ligeiramente sujas, seu cheiro mudou.
O homem existe como ela diz. Ele a acorda. Pergunta de uma só vez de onde ela vem, quem é, sua idade,
seu nome, seu endereço, sua profissão. Ela nada responde. Nem de onde vem. Nem quem é. Não diz seu nome. Acabou. Ele não vai insistir. Fala de outra coisa.
Diz: Em seus cabelos, em sua pele, há um novo perfume, difícil de precisar. Ela baixa os olhos para dizê-lo. Não é mais apenas seu próprio perfume, é também o do outro homem. Se ele quiser, ela virá somente com o perfume do homem, amanhã, se ele quiser. Ele não diz que quer. Uma noite ele pergunta por que ela fora à sua mesa no café à beira-mar. Por que aceitara o contrato das noites insones.
Ela procura.
Diz: — Por que desde que você entrou no café naquele estado, naquela dor tranqüila, você se lembra, queria morrer, eu também quis morrer daquela maneira teatral e exterior. Queria morrer com você. Disse para mim mesma: Encostar meu corpo ao dele e esperar a morte. Como você sem dúvida imagina, tenho atrás de mim uma educação que deveria ter me feito pensar que você era um vagabundo e que eu deveria temê-lo, mas você estava chorando, foi a única coisa que vi, e fiquei. Foi de manhã, na estrada nacional, quando disse que queria me pagar, que eu o olhei por inteiro. Vi as roupas de palhaço e, em volta dos olhos, o khol azul. Então soube que não me enganara, que eu o amava porque, ao contrário do que me haviam ensinado, você não era nem vagabundo nem assassino, saíra da vida.
Ele pensa perceber no sorriso o assédio das lágrimas, a ausência e, no olhar, a nova hipocrisia, aquela que chega quinze dias depois do início das coisas. Fica apavorado.
Marguerite Duras, Olhos azuis cabelos pretos
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